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TRISTE: ‘Nossa mãe morreu de coronavírus enquanto estávamos no funeral de nosso pai’, diz filho após a perda dos pais

John e Mary Boxer deveriam estar comemorando suas bodas de diamante nesta semana. A família deles planejava fazer uma grande festa para marcar os 60 anos de casamento.

Mas John e Mary morreram de covid-19 no espaço de dias um do outro.

“Ambos vieram de famílias grandes e eram um de sete filhos”, diz a filha Elaine. “Quatro meninos e três meninas. Papai trabalhava em telecomunicações e a mamãe era faxineira e depois babá no Hospital Real de Sunderland.”

O casal era amigo desde a infância, crescendo na mesma parte da cidade de Sunderland, no nordeste da Inglaterra.

“Minha mãe parou de trabalhar para cuidar da minha avó que viveu conosco e com minha irmã a vida toda. Minha avó tinha 103 anos quando foi admitida em uma casa de repouso depois que minha mãe começou a ter problema nos quadris. Ela (avó) tinha 106 anos quando morreu.”

Elaine e sua irmã Glynis estavam planejando o 60º aniversário do casamento de seus pais.

“Estávamos pensando em reservar um salão de festas e ter meu cunhado, que é cantor, se apresentando”, diz Elaine. “Sabíamos que meus pais gostavam de cantar e adorariam ouvi-lo cantar. Mas, por causa do confinamento, tivemos que suspender os planos.”

Em 10 de abril, John adoeceu e foi levado ao Hospital Real de Sunderland, o mesmo hospital em que sua esposa trabalhara. Era sexta-feira Santa. Os funcionários não encontraram nada de errado com ele e o mandaram de volta para casa.

Mas, no domingo de Páscoa, ele voltou e o hospital realizou os testes para covid-19. Na segunda-feira de Páscoa, seu exame deu positivo.

“O hospital ia mandá-lo de volta para casa novamente, mas quando meu cunhado o buscou, ele não conseguia se levantar”, conta Elaine. “Papai tinha diabetes e mal de Parkinson, mas ele disse que se sentia cansado e exausto.”

John ficou no hospital, mas sua saúde se deteriorou e, na sexta-feira, 17 de abril — sete dias depois de adoecer — ele faleceu.

‘Mamãe parou de comer’

“Não podia acreditar”, diz Elaine. “Falei com ele na quinta-feira santa e ele parecia bem — estava conversando e rindo como sempre.”

Elaine diz que Mary, que havia sido diagnosticada com Alzheimer, inicialmente achou difícil processar o que havia acontecido.

“Ela parou de comer, mas nós achávamos que era por causa do pesar (pela morte do marido)”, diz Elaine.

Alguns dias antes do funeral do pai, Elaine foi à cidade enquanto a irmã foi ver a mãe.

“Minha irmã me ligou dizendo que eu precisava vir imediatamente. Mamãe estava angustiada e sua temperatura subiu. Ela não tinha tosse ou outros sintomas relacionados à covid-19, mas seus níveis de oxigênio estavam baixos.”

Mary deu entrada no hospital naquela tarde, onde foi diagnosticada com coronavírus. Ela foi mantida no hospital e a família pôde vê-la por meio de uma videochamada.

O funeral de John foi realizado no sábado, 2 de maio, na igreja católica romana de St. Hilda, em Sunderland — mas apenas sete pessoas puderam comparecer.

“Fui eu, meu companheiro, minha irmã, meu cunhado, o irmão mais velho de meu pai, meu primo e sua esposa. Todos nossos telefones estavam no modo silêncio”, diz Elaine.

“Depois do funeral, voltamos à casa da minha irmã. Meu cunhado checou o telefone e viu que havia ligações perdidas. Ele ligou de volta e foi encaminhado para a enfermaria do hospital. Ele disse à minha irmã o que o hospital disse: ‘Mary morreu.”

“Nos abraçamos e começamos a chorar. Sabíamos que mamãe estava mal e, devido à idade dela, não havia muito que eles pudessem fazer. Mas foi um choque que isso tenha acontecido no dia do funeral do papai.”

“Estávamos muito tristes, mas minha irmã e eu ligamos o piloto automático. Telefonamos para avisar a família. Também falamos com o padre e ele disse que a igreja estava fazendo orações por nossa mãe mais cedo naquele dia.”

“Ligamos para os funcionários da funerária de quem mal havíamos nos despedido — eles também não podiam acreditar no que aconteceu.”

O funeral de Mary foi no dia da Vitória na Europa, em 8 de maio (que celebrou os 75 anos do fim da Segunda Guerra no continente). Naquele momento, as regras sobre comparecimento a funerais haviam mudado. Dezesseis pessoas foram permitidas no funeral, que foi transmitido pela internet a amigos e familiares.

“Mamãe e papai têm famílias grandes e sinto que foram traídos pelos funerais que teriam tido”, diz Elaine.

“Eles se amavam muito e fariam qualquer coisa um pelo outro. Se um estivesse no hospital, o outro estaria ao seu lado a todo momento”, acrescenta.

“E aproveitavam o tempo livre. No 40º aniversário de casamento, foram para os Estados Unidos e se divertiram muito na Flórida e em Las Vegas.”

A família agora planeja celebrar a vida de John e Mary no ano que vem.

“Teríamos uma grande comemoração pelo 60º aniversário de casamento dos meus pais e reuniríamos toda a família. Faremos uma celebração conjunta para eles no final do ano.”

“Precisamos de um desfecho”, acrescenta Elaine. “O pequeno conforto que temos é que eles estão juntos novamente — eles estavam sempre juntos.”

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